Na tatuagem japonesa as estações favoritas são a primavera e o outono. Nessas épocas a natureza está radiante em um ritmo exalante de cores, seja com flores nascendo ou lentamente graduando seus tons. Capturar a efemeridade etérea desses momentos os deixam ainda mais poderosos.
No Japão, nada define melhor o conceito de beleza se não a flor de Sakura.
As árvores de cerejeira florescem uma vez por ano por um curto período de tempo, as flores duram pouquíssimos dias e logo caem ao chão ou são levadas por chuvas de verão.
No país inteiro as pessoas fazem piqueniques chamados Ohana-mi お花見、que significam literalmente “observar as flores” uma tradição que vem de práticas aristocráticas de trezentos anos atrás.
As pessoas comem, bebem, se divertem e até se casam, rodeados de uma paisagem em rosa e branco. Tudo se torna mais feliz e intenso.

Outras tradições de primavera incluem o ritual de colher flores e prepará-las de diversas formas pra serem comidas e assim suas propriedades e energia sejam transferidas para o corpo. Da mesma forma, quando é tatuada a flor de sakura em nossos corpos estamos reinterpretando essa noção de aplicar a nossos corpos a força na natureza.
Hoje em dia com a imprensa cobrindo todo o processo de desabrochamento e florescimento das Sakuras, criou-se uma associação com o início de novas fases, seja o início do ano letivo escolar ou o começo do ano fiscal para as corporações japonesas.
Historicamente, as flores de sakura devido ao seu breve florescer, tem uma forte conotação masculina devido à associação com a vida do samurai, que também durava pouquíssimo tempo e poderia acabar com um piscar de olhos, e assim sendo deveria ser aproveitada ao máximo.

Essa associação das sakuras aos “homens de bravura” se estendeu até os dias modernos, na Segunda Guerra Mundial, existiu um esquadrão de pilotos kamikaze designados Yamazakura “sakuras da montanha”.
No pós-guerra o motivo poderia ser visto em tatuagens usadas por mafiosos do underground, como quem vive sob a ideologia de “viva intensamente e morra jovem” .
O que faz das sakuras tão belas é justamente o fato delas viverem por um período tão curto. Elas murcham, desvanecem e caem, assim como nossas peles e tatuagens.
No Japão essa noção de impermanência é chamada Mujo (無情) é um conceito central na forma como o Japão aborda a sua visão de beleza e natureza. As estações mudam, nós envelhecemos, o tempo passa e a vida acaba. Mas apesar disso , tudo renasce.
Como as estações, o Irezumi representa o conceito de Mujo. As tatuagens duram apenas enquanto nosso corpo existir.Estão muito longe de durarem tanto quanto outras formas de arte como a escultura, pintura, ou até a música.
A consciência sobre esse fenômeno transitório é chamado Mono no aware em japonês.
A beleza da Sakura não está apenas no momento em que está florescida, mas também nas pétalas ao vento, em sua queda lenta e suave, e em seus pedaços espalhados por todo o país.



